CONTOS



JOGOS DE GUARDANAPOS
Otávio Martins


Ao atravessar a praça principal por uma das suas diagonais, no espaço localizado na área central, instalada em volta do chafariz, deu com a feirinha de artesanato. Várias casinhas de madeira, dispostas uma ao lado da outra. Distraído, deixou o olhar fixado na senhora que, ao mesmo tempo em que expunha os seus trabalhos de crochê, tecia um enorme trilho para ser usado provavelmente numa mesa de jantar. A memória o levou ao tempo da adolescência; estava lá pelos seus doze ou treze anos.
Sua mãe sabia como poucas pessoas a arte do crochê. Não se recorda de tê-la visto fazendo alguma peça de grandes dimensões.
Lembrou, entretanto, de uma colcha de casal, bege, que um dia foi entregar para uma senhora; parece que era mãe de um comerciante que morava ali por perto da sua casa. Porém, aquela peça era composta por vários e pequenos quadrados de crochê, com uma flor, em alto relevo, no centro de cada um, que foram sendo juntados, até transformarem-se naquela colcha. Nas laterais, recordava, vagamente, que tinha uma espécie de franja. Era uma peça muito bonita e, talvez, muito cara.
A especialidade da sua mãe era, na verdade, pequenas peças: guardanapos. Raramente algum trilho – guardanapo grande e comprido – para ser colocado numa mesa retangular, quase em diagonal, no sentido maior do móvel. Mesmo assim, geralmente, fazia esse tipo de trabalho, somente por encomenda.
Seu pai nunca aprovou a ideia dela querer vender os seus crochês. Naquele tempo, mais do que hoje, grande parte das mulheres não tinha quase que a menor chance de qualquer tipo de iniciativa para alguma atividade que não fosse os afazeres domésticos. Ainda mais que lhes pudesse proporcionar alguma renda e, com isso, ares de independência.
Então, juntaram-se na condição de cúmplices. Além de trabalhar muito bem com os vários tipos de agulhas e linhas, sua mãe trabalhava muito rápido. Sempre achou meio mágico aquela técnica de, em movimentos rápidos e repetidos, ela fazer com que a linha e a agulha entrassem em perfeito entrosamento, parecendo que, assim, o faziam por conta própria. Tanto, que muitas vezes sua mãe estava falando e olhando para ele, sem que para isso tivesse de parar o seu crochê. Coisa que lhe impressionava e admirava; e era bom para os dois.
Esperava ansioso, quando ela, logo após acabar um jogo de guardanapos, juntava numa pequena vasilha água e polvilho, já com o ferro de passar esquentando, para, em seguida, engomá-los.
Costumava se arrumar com a melhor roupa para a tarefa de sair, de preferência fora do bairro em que moravam, a oferecer os lindos jogos de guardanapos da sua mãe, ao tempo em que o seu pai estava no trabalho. Quase sempre conseguia vendê-los. Quando não, sua mãe nem se importava, pois sabia que era assim mesmo. Guardava-os, pacientemente, acondicionados na mesma “embalagem” e, no dia seguinte, lá se ia para mais uma jornada. Para os fins de semana, tinha, quase sempre, a entrada da matinê garantida pelo recebimento das suas comissões sobre as vendas dos guardanapos.
Depois de algum tempo, descobriu outra da sua mãe. Ela passou a fazer uns jogos de guardanapos em tecido e crochê. Chegou a pensar que ela fazia aquilo só para ganhar tempo (ou mais dinheiro), pois a maior parte do guardanapo era de tecido; seria só moldá-lo, fazer a bainha e, ao redor, trabalhar algumas carreiras de crochê.
Não. Naquele tecido, uma espécie de algodão telado, sua mãe pintava, com tinta a óleo, lindas flores e outras figuras que já nem lembrava mais. Era outra revelação dos dons artísticos de sua mãe, além do violão, que ela tocava muito bem.
Para a sua participação no “negócio”, ficou bem melhor, pois, assim, ele levava mais variedades para oferecer às freguesas. E muito mais cores.



PEDRO W. E O CLOWN.

Otávio Martins

    Foi, talvez, uma das últimas vezes que se viu o Pedro sorrir daquele jeito. Escancarou o seu sorriso no justo momento em que retirava o nariz redondo e vermelho, tentando se desvencilhar do fino elástico preso no emaranhado dos seus cabelos encaracolados, os quais denunciavam os primeiros fios brancos. O clown já havia cumprido a sua parte, agora era a vez dele se divertir. Juntou-se aos convidados, saiu cantando e dançando pelo salão.
   Quando se encontraram pela primeira vez, há muitos anos, lá no banco da praça de esportes, nem seria preciso que ele estivesse em pé para que se percebesse o seu estado, já um tanto embriagado. Ofereceu a garrafa para que o novo amigo compartilhasse do seu prazer. Não haveria como recusar àquele convite; o outro aceitou e tomou um gole bem demorado da cachaça e, logo a seguir, tirou um cigarro do maço que estava no bolso da camisa. Antes que acendesse o isqueiro, Pedro dirigiu-se a ele, categórico:
   - Sabia que estava faltando alguma coisa! (Com a voz já bem arrastada).
Deixando parte de um cigarro para fora do maço, o companheiro retribuiu a gentileza oferecendo-o àquele sujeito surgido do meio da noite e da praça, solícito e espontâneo. A seguir, perguntou:
   - Você é daqui?
   - Não faz diferença... Já vivi em tantos lugares...
   Fazia sentido. Assim como outros amigos seus, Pedro tinha naquele lugar apenas uma referência da sua vida.
   Talvez o que mais tenha impressionado a pequena aniversariante foi quando ele retirou do fundo (falso) de uma caixa de papelão que carregava consigo, em meio a algumas brincadeiras, um livro de história infantil, cujo personagem – um astronauta de primeira viagem – encontrava-se, sozinho, num outro planeta, muito distante, pouco maior do que o seu tamanho. Foi um momento de magia, quando, retirando, vagarosamente, o seu braço direito, trouxe na mão o livro, embrulhado para presente, com uma bela dedicatória do seu clown. Coisa pra nunca ser esquecida, possivelmente. O gesto lembrou aquele mesmo que ele teve – de pura sinceridade - ao oferecer a cachaça lá na praça.          
   Pedro mal conseguiu acabar de fumar o cigarro e logo se foi estirando, de papo pro ar, na extensão do banco, onde antes estava sentado. A garrafa de cachaça, que já estava vazia, ficou jogada no canteiro, logo ali, atrás do banco. Seu novo amigo achou melhor deixá-lo descansar e, sem perdê-lo de vista, atravessou a rua, foi até o bar pegar mais uma bebida e ficou por perto. De repente, levantou-se de um estalo, sabendo muito bem onde estava, deu tchau e foi-se embora em direção à sua casa.
   Os adultos eram em maior número – como em quase todos os aniversários de criança – e estavam mais admirados e perplexos com aquela figura do que toda a criançada. Foram, aos poucos, fechando o círculo ao redor da aniversariante e de seus pequenos convidados, os quais acompanhavam atentos toda a movimentação e perguntavam tudo sobre a vida do clown. Ele até mostrou uma fotografia da sua namorada, que trazia na carteira; uma figura muito conhecida de todos - personagem da televisão. Ninguém, pelo menos a garotada, duvidou. Vez que outra comia um salgadinho ou algum doce que eram oferecidos sobre as mesas e um pouco de refrigerante, deixando visível que o clown era como eles, real. Assim, as crianças iam ficando familiarizadas com ele. Os adultos é que ainda se mostravam um tanto desconfiados: 
  - Que estranho personagem será este que circula livremente por todos os cantos do salão sem a menor cerimônia ou formalidade?
   Ao mesmo tempo em que deixava transparecer certa ingenuidade, não escondia que se aproveitava da cumplicidade da criançada para comportar-se daquela maneira, podendo-se até pensar, irresponsável. Só o nariz é que era de bêbado: até ali, ele só havia bebido refrigerante, comido alguns doces e salgadinhos. O  clown, dessa forma, dominava o espaço, movimentando-se com perfeita desenvoltura. Pedro se valia de todas as técnicas e exercícios que por tanto tempo havia desenvolvido junto ao seu grupo lá do teatro, além de sua passagem por uma infinidade de palcos; apresentações de rua e, ainda, as suas participações pelo cinema.
   Naturalmente que aquele banco da praça, a partir dali, passou a ser o local de encontro dos dois. Quando tiravam para visitar a cidade, seria bem provável que lá encontrassem a companhia um do outro. Vez que outra eram ilustres fregueses do bar da Iracema; eles e o pai de Pedro.
    Por algum tempo, chegaram até a morar juntos no apartamento do irmão do Pedro, lá na Capital. Pedro vivia às voltas com tanto ensaio do seu grupo de teatro e, também, com a bebida, com a qual já havia se habituado. Foi por essa época que o seu amigo cismou de escrever um livreto, resolvendo fazer o seu lançamento no meio da rua; mais                                             precisamente na esquina mais conhecida e mais democrática da cidade e, depois, no fim de semana, foi expor a sua publicação num brique que funcionava num grande parque, próximo ao lugar onde estavam morando. Representando o personagem do seu livro, para chamar a atenção, recortou-o de uma folha grossa de isopor; a figura estava assentada sobre um pedestal, também feito de isopor. No brique, conseguiu vender somente um exemplar do pequeno livro, apesar do baixo preço. Ao se aproximar o final da feira resolveu distribuir, gratuitamente, todos os exemplares do seu primeiro trabalho literário a quem por ali passasse. A figura representada no recorte de isopor, ofereceu, como presente, à menina de seis ou sete anos que estava em companhia dos seus pais, artesãos, que também tentavam vender os seus trabalhos bem próximos ao local onde o “escritor” expunha o seu livro. A menina ficou encantada pelo fato de poder levar para casa o leão, o qual, possivelmente, iria juntá-lo aos seus brinquedos.
   - O senhor tem certeza de que não quer mais o seu leãozinho?
   - Sim. Agora, ele é seu.
   Além daquela caixa de papelão, o clown carregava consigo uma série de outros objetos: um xale de crochê de duas cores, já bem surrado; de papelão, grosso e firme, um cone, daqueles que servem como suporte para as linhas usadas nos teares. No meio desse cone, um barbante amarrado e outras bugigangas que ele, parece, nem chegou a usar todas durante a sua apresentação. Era tão convincente em seus gestos e o desempenho através de pantomimas que, ao encostar o olho direito no lado que tinha o orifício menor do cone e, ao mesmo tempo, rodando a ponta do pedaço de barbante, como se fosse uma manivela de verdade, a qual serviria para “dar corda” na sua filmadora improvisada que, ao apontá-lo, principalmente em direção aos adultos, sugerindo o movimento de uma panorâmica, como se diz no cinema, todos ensaiavam uma pose, na feição de que, realmente, estivessem sendo filmados. Mexia e remexia de forma misteriosa, com o olhar fixo e arregalado, quase revelador, o interior da caixa de papelão, provocando um enorme suspense na platéia que, àquela altura, só tinha olhos para ele. Pelo que se viu mais tarde, não tinha nada mais lá dentro, além daquilo que ele já havia usado nos números que havia apresentado.
   Somente ele e o amigo lá da praça, o pai da aniversariante sabiam. Ficou combinado entre eles que o clown do Pedro entraria no meio da festa, de surpresa e, na forma mais natural possível, faria a apresentação do seu personagem; depois de certo tempo, sairia da mesma forma, rua afora. Mas ele preferiu alterar o roteiro, demonstrando, assim, que o clown era uma figura ideal e sugeria que, na realidade, poderíamos ser melhores se todos habitassem o universo das crianças e dos clowns que, segundo ele acreditava, era o mesmo.
   Quando chegou à porta do salão onde transcorria a festa, todos pararam surpreendidos pela aparição daquela criatura tão doce, mistura de tipos fraternal, generoso e confiante. Mesmo com o nariz vermelho de um bêbado qualquer. Pedro assim o fazia somente para experimentar uma ponta, que fosse, da liberdade de ser o que realmente era. 
   Quase no final da festa podia-se notar a menina que comemorava os seus sete anos, andando, já sonolenta, entre os últimos convidados, vestindo parte do figurino do clown. O casaco preto, espécie de casaca, tinha um girassol preso à lapela, que a pequena deixava arrastar pelo chão a parte de trás, mais comprida; o chapéu, também preto, parecendo uma peça emprestada de Chaplin.
                                                
  28.11.2010 - Pra Mariana, aos 23; recordações dos seus 7 anos.
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